Relações anglicano-católicas: nem diálogo, nem ecumenismo
A opinião é do jornalista Domingo Riorda, publicada no sítio argentino Ecupress - Agência de Notícias Prensa Ecuménica, 21-10-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
A decisão é de uma organização religiosa internacional que, no exercício de sua responsabilidade institucional, toma uma resolução que considera o melhor para a sua organização. Nesse processo institucional não há por que consultar nem pedir permissão a nenhuma outra instituição.
Se a decisão fosse tomada a partir do diálogo com outra instituição, previamente a uma resolução final se discutiriam diversos documentos frutos da conversação e das diversas fórmulas antes de se chegar à resolução final. Neste caso, não foi assim.
O próprio arcebispo da Igreja anglicana, Rowan Williams, comentou que não sabia da nova Constituição Apostólica e que esperaria para ver os detalhes da resolução para saber bem do que se trata, mesmo que tenha tido uma posição positiva para com a decisão vaticana.
Esse ponto deve ficar claro para não aumentar as confusões sobre o significado do diálogo e do ecumenismo entre o protestantismo e o catolicismo romano. Também é necessário o esclarecimento para identificar as motivações desse translado de fiéis de uma parte à outra.
A decisão dos anglicanos que passam para o catolicismo romano não surge por causa de diferenças doutrinais, nem de ordem litúrgica, mas sim por causa de atitudes diante da vida. Trata-se de quem não aceita que as mulheres sejam bispas, que rejeita o aborto, as relações homossexuais, a bênção dos casamentos homossexuais e lésbicos e outras vivências semelhantes.
Essas pessoas, que não se sentem cômodas nem compreendidas em um lugar, têm direito de ir embora para outro espaço onde ficarão mais confortáveis com suas convicções e atitudes, mas deve ficar claro que esse é o núcleo da decisão. Ninguém ignora que, no debate sobre esses pontos, afloram passagens bíblicas e interpretações teológicas, mas o divisor de águas é a atitude de vida. Depois de tomar uma determinada postura buscam-se os fundamentos religiosos que a avalizem.
Não é casual que, para receber essas pessoas, a Igreja Católica Romana apele a uma estrutura organizativa similar à da Opus Dei, e que isso se realize mediante um processo que não difere do que o Vaticano praticou para trazer de volta os bispos tradicionalistas ordenados por Lefebvre, que João Paulo II havia excomungado.
Também não é casual que, na próxima semana, delegados do Vaticano se reunirão com lefebvrianos para avançar na reconciliação total, nem é fortuito que, em Roma, no dia 18, domingo, concluiu-se o congresso "Summorum Pontificum" com uma solene missa em latim, na qual participaram lefebvrianos, e aproveitou-se para promover esse estilo de missa que cada vez tem mais adeptos.
Por isso, essa incorporação de anglicanos no catolicismo romano está longe de ser um fruto do diálogo e do ecumenismo. É um fato que se entronca com as questões de vida que também afetam o distanciamento de outras Igrejas, além da Anglicana e da Católica Romana.
O mesmo tema, o do sexo, é o que produz o distanciamento entre as fileiras evangélicas. Nesse setor, as discussões doutrinais ficaram no baú das coisas velhas, deixando para trás assuntos famosos, como o do batismo de crianças ou de adultos, com pouca ou muita água, aparecendo como primários temas como o divórcio, o aborto, a homossexualidade, o papel da mulher na Igreja que, certamente, vêm acompanhados de diversas visões que se tem sobre a vida humana.
Por isso, é necessário esclarecer termos e atitudes. É preciso reconhecer a habilidade e a oportunidade de Bento XVI ao tomar essa decisão, que se enquadra no atual projeto vaticano, mas deve ficar claro que não é um fruto do diálogo nem do ecumenismo.



